domingo, 8 de novembro de 2009

POEMA 20

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros ao longe”
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quis e por vezes ela também me quis...
Em noites como esta, eu a tive entre meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quis e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos?
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais profunda sem ela
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.
Que importa se o meu amor não pudesse guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma se contenta por tê-la perdido
Como para aproximá-la meu olhar a procura
Meu coração a procura, e ela não está comigo
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.

Minha voz procurava o vento para tocar-lhe no ouvido
De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é verdade, mas talvez a queria
Ah! É tão curto o amor, tão demorado o esquecimento
Porque em noites como esta eu a tive entre meus braços,
Minha alma não se contenta por tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última esta dor que ela me causa,
e estes, versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

Pablo Neruda

Analfabetismo e preconceito

Vamos falar de algo que, no Brasil, muita gente finge que não vê. O glorioso preconceito. Sobre isto, a OEA divulgou um relatório em que o Brasil é classificado de violento, preconceituoso e outras iniqüidades.
No caso da língua, digo com todas as letras que, no Brasil, quando se diz que alguém é “analfabeto”, o que se quer efetivamente é desqualificar esse indivíduo socialmente.
Lá pelo ano de 1996 [ou 1997], o então presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Orlando Silva Júnior, falando da tentativa que a entidade que dirige fez de impedir a realização do provão, soltou uma pérola. Disse Orlando que “não houveram excessos”. Bum! O mundo desabou-lhe nas costas. Eu mesmo comentei o fato com os meus alunos das unidades do Anglo em que leciono e brinquei, dizendo que “o presidente da União Nacional dos Estudantes não estuda”. A revista Veja (edição 1471) dedicou-lhe uma nota na seção “Veja essa”, tratando do deslize gramatical. Arnaldo Jabor, na globo, “detonou” o pobre coitado.
Até aí, tudo bem. Acho que Orlando merece a crítica, afinal o cargo que ocupa lhe exige o domínio da norma culta. No entanto não vi ninguém fazer o mesmo, por exemplo, com o prefeito de São Paulo, que, na TV Bandeirantes, durante um debate antes do primeiro turno das eleições, naquela mesma época, disse, entre uma infinidade de patacoadas, brandindo uma folha de papel: “Se eu dispor de tempo”.
Sob a ótica da norma curta, o erro de Orlando é tão grotesco quanto o do executivo da Eucatex, mas... Conclua você, leitor.
Qual foi o erro gramatical de Orlando? O verbo haver, quando usado com o sentido de existir, ou de ocorrer, acontecer, não deve ser flexionado. O problema é que pouca gente tem consciência do que efetivamente ocorre com o verbo “haver”.
“O que é que há?” Quem é que nunca disse ou ouviu essa frase? Pois bem, esse “há” é do verbo haver, conjugado na terceira do singular do presente do indicativo. A terceira do plural é “hão” (“Eles hão de conseguir”). Ninguém erra esse verbo no presente. Você nunca disse, nem ouviu alguém dizer “Hão problemas graves neste país”. Ninguém erra isso. Ninguém. Mas, quando se trata do pretérito ou do futuro, poucos são os que acertam. É um tal de “Houveram vários acidentes”, “Haverão graves problemas” etc. Na verdade, como já disse, as pessoas não sabem o porquê da história. É muito comum alguém perguntar se “o há é com h”. Quando alguém me pergunta isso, costumo responder simplesmente que “esse há é da terceira do singular do presente do verbo haver”. E por que respondo assim? Porque quero que a pessoa pense. Quero que ela entenda o que está ocorrendo.
Quem entende que está conjugando um verbo, numa determinada pessoa de um determinado tempo, entende que, se trocar só o tempo, não vai precisar trocar o singular pelo plural. Assim sendo, se você diz “Há problemas”, diga “Houve Problemas”, “Haverá problemas”, “Caso haja problemas”, “Se houvesse problemas”, “Se houver problemas” etc.
“Há, houve, haverá, haja, houvesse, houver” são formas da terceira do singular do verbo “haver”. Só muda o tempo. “Há” é do presente do indicativo, “houve” é do pretérito perfeito, “haverá” é do futuro do presente. Muda o tempo, mas não muda o número, ou seja, não se troca o singular pelo plural.
O erro de Orlando, o presidente da UNE, não foi nenhuma novidade. Ele não foi o primeiro a pronunciar a pérola. Nem será o último. Executivos, empresários, políticos e outros “notáveis” escorregam no verbo haver. Nunca vi nenhum desses figurões ser execrado publicamente pelo deslize. Mas o pobre Orlando... Tenho ou não tenho razão quando digo que na verdade o problema se chama “preconceito”?
Voltando ao prefeito de São Paulo (“Se eu dispor de tempo...”), não ouvi ninguém abrir a boca. O verbo “dispor” é conjugado exatamente como o verbo “pôr”, do qual deriva. E como é o futuro do subjuntivo do verbo pôr? É “puser”. Portanto o futuro do subjuntivo de “dispor” é “dispuser”. “Se eu dispuser de tempo” é o que deveria ter dito um dos últimos produtos do senhor Duda Mendonça. Mas ninguém disse uma palavra a respeito.
Tenho razão? Parece que sim. “Analfabeto”, no Brasil, só vale para quem é socialmente desprestigiado. Vicente Matheus, ex-presidente do Corinthians, riquíssimo, autor de frases antológicas (“Jogar no interior é uma faca de dois legumes”), era “folclórico”. Analfabeto? Nem pensar.
Um forte abraço.

Pasquale Cipro Neto

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

DEFEITOS E QUALIDADES

É bastante comum ouvirmos dizer “Fulano de Tal tem muitas qualidades” e também, “Beltrano tem um defeito...”. Mas será que as pessoas realmente têm os tais defeitos e/ou qualidades?

Certamente que não!

Defeitos e qualidades são denominações substantivas que se aplicam a mercadorias, sejam elas máquinas e equipamentos ou quaisquer outras classificações de produtos naturais ou industrializados.

Do ponto de vista semântico, ao substantivo pessoa é errônea a adição de tais expressões. A este, por estar situado num nível mais elevado de conceitualização, se diferencia dos demais substantivos aos quais cabe, sem a preocupação da diminuição pejorativa, mais apropriadamente os termos ‘defeito’ ou ‘qualidade’.

Enquanto condição em que se encontra, e a somatória das características físicas, psicológicas e intelectuais do indivíduo, pode-se dizer que este ou aquele possui ou reúne determinados dons, aptidões ou facilidades para executar esta ou aquela tarefa. Da mesma maneira, é aconselhável que se evite a utilização do termo ‘defeito’ para se referir a ‘pessoas’. No lugar deste, empregue: dificuldades, limitações etc.

Entretanto, vale acrescentar, a terminologia ‘qualificação’ ou ‘qualificado’, é uma exceção e continua sendo abundantemente empregada nos diversos meios ocupacionais para se referir àqueles candidatos habilitados para preencher determinados cargos ou funções profissionais.

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Juarez Firmino
Titular Efetivo de Cargo de Professor de Língua Portuguesa na Rede Oficial de Ensino do Estado de São Paulo

O último discurso

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu oficio. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar ¾ se possível ¾ judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo ¾ não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo a fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desempregados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que podem me ouvir eu digo: “Não desespereis!” a desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura dos homens que temem o progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as nossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquinas! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em nossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro dos homens ¾ não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder ¾ o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa.

Portanto ¾ em nome da democracia ¾ usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão!

Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e a prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo ¾ um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

( O grande ditador)

“Não sois máquinas! Homens é que sois!”

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Charles Chaplin

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Questão de Língua Portuguesa

Aí vai um desafio para quem quiser testar seus conhecimentos de língua Portuguesa. Trata-se de um teste realizado em um curso na American Airlines.

Na frase abaixo deverá ser colocado 2 pontos finais e 2 vírgulas
para que a frase faça sentido.


MARIA TOMA BANHO PORQUE SUA MÃE DISSE ELA PEGUE A TOALHA

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RESPOSTA:

Maria toma banho porque sua. Mãe, disse ela, pegue a toalha.

A 'pegadinha' está no fato do uso do verbo suar, confundindo com o pronome possessivo (sua).

QUANDO SE TEM DOUTORADO...

O dissacarídeo de fórmula C12H22O11, obtido através da fervura e da evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do caule da gramínea Saccharus officinarum Linneu, 1758, isento de qualquer outro tipo de processamento suplementar que elimine suas impurezas, quando apresentado sob a forma geométrica de sólidos de reduzidas dimensões e arestas retilíneas, configurando pirâmides truncadas de base oblonga e pequena altura, uma vez submetido a um toque no órgão do paladar de quem se disponha a um teste organoléptico impressiona favoravelmente as papilas gustativas, sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que ocorre no líquido nutritivo da alta viscosidade, produzindo nos órgãos especiais existentes na Apis mellifera, Linneu, 1758. No entanto, é possível comprovar experimentalmente que esse dissacarídeo, no estado físico-químico descrito e apresentado sob aquela forma geométrica, apresenta considerável resistência a modificar apreciavelmente suas dimensões quando submetido a tensões mecânicas de compressão ao longo do seu eixo em conseqüência da pequena capacidade de deformação que lhe é peculiar.
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QUANDO SE TEM MESTRADO...
A sacarose extraída da cana de açúcar, que ainda não tenha passado pelo processo de purificação e refino, apresentando-se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular, impressiona agradavelmente o paladar, lembrando a sensação provocada pela mesma sacarose produzida pelas abelhas em um peculiar líquido espesso e nutritivo. Entretanto, não altera suas dimensões lineares ou suas proporções quando submetida a uma tensão axial em conseqüência da aplicação de compressões equivalentes e opostas.
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QUANDO SE TEM GRADUAÇÃO...
O açúcar, quando ainda não submetido à refinação e, apresentando-se em blocos sólidos de pequenas dimensões e forma tronco-piramidal, tem sabor deleitável da secreção alimentar das abelhas; todavia não muda suas proporções quando sujeito à compressão.
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QUANDO SE TEM ENSINO MÉDIO...
Açúcar não refinado, sob a forma de pequenos blocos, tem o sabor agradável do mel, porém não muda de forma quando pressionado.
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QUANDO SE TEM ENSINO FUNDAMENTAL...
Açúcar mascavo em tijolinhos tem o sabor adocicado, mas não é macio ou flexível.
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QUANDO NÃO SE TEM ESTUDO...
Rapadura é doce, mas não é mole, não!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A puta

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na Rua de Baixo
onde é proibido passar.

Onde o ar é vidro ardendo
e labaredas torram a língua
de quem disser: Eu quero
a puta
quero a puta quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
de longe. Na mata do cabelo
se abre toda, chupante
boca de mina amanteigada
quente. A puta quente.

É preciso crescer
esta noite a noite inteira sem parar
de crescer e querer
a puta que não sabe
o gosto do desejo do menino
o gosto menino
que nem o menino
sabe, e quer saber, querendo a puta.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 18 de outubro de 2009

NARRAÇÃO, DESCRIÇÃO E DISSERTAÇÃO

São modalidades redacionais que indicam a percepção, respectivamente, das mudanças de situações (ação verbal), do relato de propriedades e aspectos simultâneos dos elementos, e dos pontos de vista daquele que escreve o texto.

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Narração é um tipo de narrativa que apresenta um conjunto de transformação de situações referentes a personagens determinadas (mesmo que sejam coletivas), ou a coisas particulares, num tempo preciso (o subsistema do pretérito) e num espaço bem configurado. Neste tipo de texto, há sempre uma progressão temporal entre os acontecimentos relatados e por trabalhar predominantemente com termos concretos, diz-se que a narração é um texto figurativo.

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Descrição é o tipo de texto em que se expõem características de seres concretos (pessoas, objetos, situações etc.) consideradas fora da relação de anterioridade e de posterioridade. Trata-se de uma modalidade redacional em que o texto também é figurativo, mas aqui temos a inexistência de progressão temporal, isto é, o relato de propriedades e aspectos simultâneos dos elementos descritos que se apresentam numa única situação, não havendo, portanto, relação de anterioridade e posterioridade entre seus enunciados. Os tempos verbais básicos utilizados são o presente ou o pretérito imperfeito (às vezes ambos).

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A dissertação, diferentemente dos textos narrativos e descritivos que produzem uma representação do mundo, é o tipo de texto que analisa, interpreta, explica e avalia os dados da realidade. Ao contrário do texto narrativo e do descritivo, ele é temático, visto que trata de análises e interpretações genéricas válidas para muitos casos concretos e particulares, operando predominantemente com termos abstratos. Também mostra mudanças de situação, mas neste tipo de texto o tempo é o presente no seu valor atemporal e a intenção é observar a ordenação que obedece às relações lógicas (analogia, pertinência, causalidade, coexistência, correspondência, implicação etc.). O discurso dissertativo típico é o da ciência, o da filosofia, o dos editoriais dos jornais etc.

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Prof. Juarez Firmino

Qual é a função da educação?

Qual é a função da educação? Socializar o conhecimento acumulado pela humanidade? Preparar as novas gerações para a inserção no mundo? Adaptar as crianças e jovens ao mundo gerado pelas gerações que os antecederam? Contribuir para o processo de humanização? Preparar os jovens para o mercado de trabalho? Formar cidadãos críticos e conscientes?
As respostas são afirmativas. O que demonstra o quanto o processo educativo é complexo, abrangente e historicamente determinado. Isto significa que a ênfase em um ou outro aspecto do educar é determinado socialmente. Nas diferentes épocas da história, as sociedades impõem seus valores às novas gerações e, assim, geram determinadas expectativas sobre a educação. Através desta, as sociedades transmitem conhecimentos e normas de conduta padrões às crianças e jovens. O sucesso destes depende da assimilação e internalização do padrão considerado normal. Quanto mais adaptado, maior as possibilidade de que o indivíduo seja plenamente integrado.
Por muito tempo, o espaço familiar, o grupo, a comunidade, etc., foram suficientes para proporcionar o processo de socialização. Contudo, a complexidade e a extensa diversificação das funções nas sociedades modernas debilitaram sua capacidade em promover a integração social das novas gerações. A socialização das novas gerações no mundo do trabalho e na sociedade em geral passou a exigir a intervenção de instituições específicas. Paulatinamente, recaiu sobre a escola a função socializadora, ainda que a família e outras esferas da vida em sociedade também contribuam nesta direção. Não obstante, a escola passou a ser caracterizada pela função peculiar de promover o processo de socialização.
A escola enquanto instância específica para socializar as novas gerações tem uma característica essencialmente conservadora. Sua função é garantir a reprodução social e cultural dos valores e conhecimentos necessários à manutenção do status quo, à conservação da sociedade de acordo com a expectativa predominante. Esta função também é assumida por outras instituições e grupos da vida social: família, meios de comunicação, religião, mundo do trabalho, etc.
Como nota Gómez: “A escola por seus conteúdos, por suas formas e por seus sistemas de organização, introduz nos alunos/as, paulatina, mas progressivamente, as idéias, os conhecimentos, as concepções, as disposições e os modos de conduta que a sociedade adulta requer. Dessa forma, contribui decisivamente para a interiorização das idéias, valores e normas da comunidade, de maneira que mediante este processo de socialização prolongado a sociedade industrial possa substituir os mecanismos de controle externo da conduta por disposições mais ou menos aceitas de autocontrole”.*
Porém, a sociedade é repleta de contradições e também a escola, enquanto expressão desta. Além disto, a sociedade não é estática, ela se transforma pela ação dos homens e mulheres que fazem a história. O desenvolvimento social produz mudanças que exigem a reconfiguração das expectativas e exigem novas atitudes. A escola vê-se, então, diante do desafio de se adequar às novas exigências.
A função reprodutora da educação é tencionada pela tendência em “modificar os caracteres desta formação que se mostram especialmente desfavoráveis para alguns dos indivíduos e grupos que compõem o complexo e conflitante tecido social”.** Ou seja, a lógica conservadora da instituição que educa é desafiada constantemente por outra lógica, a da mudança. Educa-se, portanto, para conservar a ordem social, mas também para transformá-la. Ainda que prevaleça a educação conservadora.

__________
* SACRISTÁN, J. Gimeno; GÓMEZ, A. I. Pérez. Compreender e transformar o ensino. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2007, p. 14,
** Idem.



Antonio Ozaí da Silva

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Halloween

No finalzinho de outubro acontecem as festividades do halloween, o dia das bruxas, parte importante da cultura e mitologia celta.

Nas escolas, nos shopping centers, e em todo lugar que seja ponto de encontro de crianças e adolescentes, a mania é curtir um som alucinado do Evanescence, do Roxette, do Michael Jackson, do NightWish, do Iron Maiden... com decoração nas cores preto e abóbora, muito adereços de morcegos e outros monstrengos, Jack-O-Lantern, bruxinhas com sua vassouras voadoras, teias de aranha, etc.





Na mitologia celta, época anterior ao cristianismo, os antigos povos pagãos acreditavam que as pessoas, quando morriam, se fossem bondosas, iriam para o paraíso, mas se tivessem praticado maldades em vida, teriam negadas a sua ascenção ao plano superior e ficariam vagando entre o imanente e o transcendente, como almas penadas, até que conseguissem arranjar uma forma de reparar os males que cometeram e tentar obter perdão dos deuses.
No final do mês de outubro e início de novembro era uma época muito propícia para que as almas dos mortos pecadores tentassem algo, pois por esses dias costumava-se comemorar o Thanksgiving Day [dia de ação de graças]. A maior parte da população era formada por camponeses, e estes festejavam para agradecer a fartura das colheitas, ficavam com o coração aberto, felizes, só pensavam em coisas benéficas. Acreditavam que os próprios deuses (Samhain, uma festa em homenagem aos mortos, o “deus dos mortos” [representado pela cor preta] e Pomona, a “deusa das plantações e dos pomares” [representada pela cor abóbora]) estariam mais propícios para o perdão por estes dias, e por isso era a época que os mortos-vivos tentavam se regenerar para conseguir entrar no reino dos céus.
Infelizmente para alguns, por tanta maldade que cometeram em vida, nem durante a celebração do Thanksgiving conseguiam obter o perdão e conseguir ir para dentro do paraíso. Para estes, uma das opções seria roubar a alma de alguém que estivesse nas festividades e que fosse bondoso, e desta forma tentar ludibriar os guardiões das entradas do paraíso, mostrando uma postura que escondesse de suas vidas passadas a discórdia, a rebeldia, a improdutividade e tantas maldades.
A partir de certa época, os festeiros do Thanksgiving descobriram que estavam sendo vítimas dos espíritos do mal, e para não terem suas almas subtraídas enquanto estivessem entretidos com as comidas e bebidas das festas (comemorava-se em todos os lugares, pois era uma época de fartura devido às colheitas, tinha muitas iguarias... bolos, doces, bebidas etc., isso explica também a brincadeira do Trick-or-Treat [gostosura ou travessura]), resolveram enganar àqueles que pudessem tentar roubar-lhes a alma, e para isso se fantasiam de fantasmas, bruxos e monstros antes de sairem de suas casas para as festanças. Com isso, evitariam de ser surpreendidos pelos mortos-vivos e poderiam se divertir sem preocupações. Assim deu-se a origem à Festa do Halloween, que numa tradução literal significa "Noite de todos os santos", por anteceder ao "Dia de todos os Santos" e, em seguida, ao "Dia de Finados".


Prof. JUAREZ FIRMINO

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Contos de ensinamento

Os contos populares da tradição oral são narrativas ancestrais que vêm resistindo à passagem do tempo. No Brasil, convivem contos de tradição dos diferentes povos indígenas e africanos, de povos orientais e os de tradição européia (estes mais divulgados pela mídia impressa, cinematográfica e virtual). São estudiosos do conto da tradição oral brasileira Câmara Cascudo e Silvio Romero, entre outros. De gêneros variados, possuem certas características que os aproximam e outras que os distanciam, permitindo diferentes classificações. A organização mais comum é a que reúne os contos populares da tradição oral em uma só categoria, “contos de fadas”, ignorando que esses últimos receberam essa designação por terem fadas em seus enredos. Mas, ao serem analisados por estudiosos, os contos populares, em geral, foram classificados de formas mais complexas. Um dos agrupamentos mais importantes é o de Aarne-Thompson; outros, dos formalistas russos, entre eles Wladimir Propp.

As classificações dos contos da tradição oral, porém, embora valiosas para ampliar a compreensão de sua natureza e importância, costumam apresentar certa rigidez própria das tipologias e não podem ser consideradas verdades absolutas, uma vez que alguns temas, por exemplo – como o da menina e o lobo, “escapam” das classificações por terem sido contados de diferentes jeitos, ou seja, em diferentes gêneros. Mas olhá-los por meio dessas análises produzidas com cuidado e intenção investigadora, ainda que marcada por uma fixidez excessiva, permite que se perceba a riqueza da cultura oral. É inegável que os numerosos estudos e classificações contribuem para isso.

Hoje vamos abrir espaço para os chamados “contos de ensinamento”, importante grupo de contos da tradição oral de todas as regiões da Terra. Como contos da tradição oral, têm em comum com os maravilhosos e os de fadas a antiguidade, comprovada pelas inúmeras pesquisas de estudiosos no assunto, a falta de autor determinado, a transmissão boca a boca através das gerações. O que os particulariza é a intenção: sua finalidade principal não é divertir, é ensinar.

Atualmente, esses contos (como todos da tradição oral) são, muitas vezes, classificados como pertencentes à literatura infantil. Se os analisarmos com mais cuidado, veremos que eles, em sua origem, eram destinados a ouvintes de todas as idades. Isso fica fácil de entender quando lembramos que, antes do século XIX, não havia essa divisão rígida que temos hoje em “mundo das crianças” e “mundo dos adultos”, com os diferentes artigos de consumo (os materiais e os culturais) divididos entre públicos bem definidos. Até essa época, em sociedades ocidentais ou orientais, as crianças das classes populares não eram apartadas dos adultos em situações de trabalho, diversão ou convívio familiar. É claro que os mais velhos passavam ensinamentos tradicionais para os mais jovens, como tendemos a fazer ainda hoje, mesmo que de modos diversos, mas a distância entre gerações não era tão espacialmente determinada; o convívio entre velhos, adultos e crianças era próximo, os nascimentos e as mortes não eram tratados de forma “higienizada” como o são atualmente: nascimentos e mortes não são coisas “da casa” são coisas do espaço hospitalar e subordinados ao cuidado médico. Os acontecimentos da vida eram partilhados no convívio próximo e cotidiano.

Nesse ambiente onde a maioria não tinha acesso à escolarização, a eletricidade chegava a poucos lugares e ainda não tinha diminuído os mistérios da noite, e a internet – nosso grande oráculo - não era sequer imaginada, a conversa era o meio mais usual para o acesso aos conhecimentos acumulados. As reuniões nas famílias ou em grupos sociais maiores, sempre eram animadas por contadores que guardavam na memória as narrativas mais significativas para a transmissão da história e das tradições de seu povo, entre eles os contos de ensinamento. Eram ocasiões de grande envolvimento dos ouvintes, era nelas que se aprendia sobre a vida. E os contos eram o instrumento, nesse momento eles ganhavam uma vida que não podemos reviver pelas versões escritas. Como diz o historiador Robert Darton, um estudioso do assunto, não há como recuperar os dispositivos gestuais e de entonação usados na época por meio das frias páginas escritas.

Embora não possamos recriá-los como eram, não deixam de ser, ainda hoje, encantadores e poderosos, mesmo para os ouvintes adultos. Há contos de ensinamento originários do mundo todo. São muito conhecidos aqueles que valorizam o esforço e a esperteza dos fracos contra os fortes e poderosos (como Pequeno polegar, João e Maria, O pequeno Alfaiate, João e o pé de feijão, Aladin e a Lâmpada maravilhosa, etc.) e os que alertavam contra os perigos do mundo (como Chapeuzinho Vermelho, Barba Azul etc.).

Como todos os demais contos da tradição oral, as versões que conhecemos hoje resultam da passagem por diferentes países e são influenciadas por suas versões escritas. Por conta de serem atualmente, tratadas como literatura infantil, e porque vivemos a divisão da sociedade em adultos (que tudo podem ver e saber) e crianças (cuja mente não pode ser contaminada pelas maldades do mundo), as versões mais recentes são abrandadas, mais românticas, em relação às primeiras que foram escritas e que, provavelmente, são mais próximas da tradição oral. As primeiras versões escritas continuam influenciando, é claro, as atuais. São elas a de Perrault, no século XVII, na França, a dos irmãos Grimm, no século XIX na Alemanha e as de Andersen, também no século XIX, na Dinamarca. Além das escritas, no século XX houve versões gravadas em discos e fitas e versões cinematográficas.

Heloisa Amaral
http://escrevendo.cenpec.org.br/

Analisando a letra da música

A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças1
Mudas
2 telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas
3 inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
4
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
5
Mas oh não se esqueçam
Da rosa
6 da rosa
Da rosa de Hiroxima
7
A rosa hereditária
8
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
9
A rosa com cirrose
10
A anti-rosa
11 atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

(Vinícius de Moraes)


Veja a análise da letra pelo Prof. Juarez Firmino
1. Gradação em “crianças/meninas/mulheres”.
2. Não conseguem se comunicar, mesmo vivenciando a mesma realidade.
3. Os sofrimentos lhes subtraíram todas as perspectivas de futuro, crianças que não têm sonhos.
4. Mulheres que não têm filhos, tampouco lares. Desviaram-se da condição de mulheres.
5. “... feridas/rosas cálidas” [versos 7 e 8] – Os versos mostram-nos as feridas “internas”, sem cicatrizes aparentes, como rosas que perderam o vigor.
6. [Versos 10 e 11] – Repetição de significações para se referir à flor, que é a mulher, e também a cidade destruída.
7. Aqui o poeta grafa Hiroxima com a letra x ao invés de sh, que seria o apropriado. Mas como o artista é um ser livre para criar, toda criação é permitida.
8. O mal e o medo que se perpetuaram de geração em geração.
9. A radioatividade expressa toda a força do espetáculo macabro da destruição.
10. A “cirrose” indica nos mostra o próprio poeta se autodepreciando.
11. Expressão underground, a bomba (a explosão, as perdas, a indignação).


Ouça a música
Rosa de Hiroshima (1973)

Assista ao vídeo
http://br.youtube.com/watch?v=1qFIuLcIGs4&feature=related


Ouça também outras preciosidades da Música Popular Brasileira
A Banda
(1965) A Deusa da Minha Rua (1940) A Flor e o Espinho (1964) A Praça (1967) Águas de Março (1972) Alma Gêmea (1995) Amélia (1941) Amor e Sexo (2003) Anos Dourados (1986) Ave Maria no Morro (1942) Balada do Louco (1982) Bandolins (1979) Beija eu (1991) Bem Querer (1998) Bilhete (1980) Brasil (1988) Brasileirinho (1949) Caça e Caçador (1997) Caçador de mim (1980) Café da Manhã (1978) Cama e Mesa (1984) Caminhando (1968) Caminhemos (1947) Canta Canta minha gente (1974) Cantiga por Luciana (1969) Canto das Três Raças (1974) Carolina (1967) Castigo (1958) Chama da Paixão (1994) Chega de Saudade (1958) Chuvas de Verão (1949) Cio da Terra (1976) Começar de Novo (1978) Começaria Tudo Outra Vez (1976) Como Uma Onda (1983) Coração de Estudante (1983) Dança da Solidão (1972) De volta pro meu aconchego (1985) Detalhes (1970) Devagar... Devagarinho (1995) Disparada (1965) Encontro das águas (1993) Encontros e Despedidas (1985) Epitáfio (2001) Espanhola (1999) Eu Sei (2004) Eu Sei Que Vou Te Amar (1958) Faz parte do meu show (1988) Festa de Arromba (1964) Foi um Rio que passou em minha vida (1970) Gabriela (1975) Garota de Ipanema (1962) Gente Humilde (1969) Gostava Tanto de Você (1973) Grito de Alerta (1979) Judia de Mim (1986) Juí­zo Final (1976) Lábios de Mel (1955) Lança Perfume (1980) Mal Acostumado (1998) Me dê Motivo (1983) Menino do Rio (1980) Mensagem (1946) Meu Bem Meu Mal (1981) Meu Bem Querer (1980) Naquela Mesa (1970) Negue (1960) Nos bailes da vida (1981) O Bêbado e a Equilibrista (1979) O Canto da Cidade (1992) O Mar Serenou (1975) O que é o que é (1982) O Surdo (1975) O Último romântico (1984) Oceano (1989) País Tropical (1969) Paixão (1981) Papel Machê (1984) Paratodos (1993) Pela Luz dos Olhos Teus (1977) Por mais que eu tente (2005) Quem é Você (1995) Recado (1990) Retalhos de cetim (1973) Roda Viva (1967) Ronda (1953) Samurai (1982) Saudosa Maloca (1955) SE (1992) Se eu quiser falar com DEUS (1980) Sem Fantasia (1967) Só Pra Contrariar (1986) Toada (1979) Travessia (1967) Trem das Onze (1965) Um Dia de Domingo (1985) Vê se me erra (1992) Verde (1985) Viagem (1973) Viajante (1989) Viola Enluarada (1967)